sábado, 27 de janeiro de 2024

Carta a Ti


O amor é frágil como límpido cristal

Quebrado, o coração sempre senti 

A mão no desenho da alma, o postal

Que ao ler o teu nome, apenas dormi


Profundo, o sonho é pura obra de arte

Na galeria exposta, aos olhos sábios 

Saboreia o amor eterno, na união parte

Colado na saliva da paixão, teus lábios 


Finos na perfeição de quem quer beijar

O cupido do amor fere ânsia em te ver

Na dança da vida, um quarto é amar

Nos detalhes por ti, três quartos é sofrer


Envio a ti esta carta, sóbria quase vazia

De amor impuro no registo que assinei

Pela mão minha tal verdade que sentia

Esvaneceu na noite gélida, e acordei

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Aquela Viagem

 

Última viagem, à tua cidade talvez

Sentida no cansaço dos teus passos

Reúnes família, em volta dos porquês

Como qua formar a roda de abraços

 

Anos que tempo renasce no passado

Com a esperança, sob o olhar á janela

Visita velho jubileu, na cadeira sentado

Rouco nas palavras enrolado na flanela

 

O passeio reabre memórias distantes

Guardadas numa variável de solidão

Com mensagem, passam no pó errantes

No respeito pelo sono, sonho de gratidão

 

Entre sono, o sonho, fica aquela saudade

De ser jovem livre a voar em pensamento

Nesta última viagem, bengala é mocidade

Que guarda no peito, valioso Testamento

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Tua Angola

Quando olho os teus olhos azuis claros

Vejo África terra vermelha ardente única

Provo sabores picantes coloridos raros

Cheiro dias de chuva nu, calor da túnica


Narrativas contadas ao criptar da lareira

Invadem jango, na noite quase fria ao luar

Com estrelas a iludir, conversa na esteira

Convida orion a descer horizonte, e zungar


Ilumina lá longe, presença da mona cubata

Que denuncia dança antiga, bem africana

Roda pés descalços, no trilho da Humpata

Ao encontro da mumuíla "digina Kassana" *


Sonâmbulo nas curvas da Leba a serpente

Guarda serra majestosa cujo olhar consola

Sinto o orgulho do passado, sabor d`gente

Vejo nos teus olhos África, vejo a tua Angola



*nome Kassana - Kimbundo



quinta-feira, 16 de março de 2023

Apelo

Faço da minha dor um poema

Faço da tua lágrima um rio

Lavo minha alma na calema

Em dias que sereia está no cio


Apelo ao escuro a luz do dia

Na revolta das ondas do mar

Que na areia fina, palavras cria

Segredos escondidos a contar


Chamo teu nome quando penso

Coisas pequenas, mas com valor

Escondidas, encobertas com lenço

Transparente, vermelho de sabor


Ó quanta embriaguês, certeza boa

Nos lábios rosados d'amor vadio

Canto letra biblica, a escarnio soa

Como soneto rasca, cheiro a bafio

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Entranhas do Sonho

Um livro que página tem na capa
História do labirinto curvo da vida
Que percorre às cegas, sem mapa
As entranhas do sonho, agora lida


Começa no nada o sono embrião
Lançado à terra mãe tão semente
Medra ao mês, o sonho campeão
Quão frágil quebra, cria inocente


O sonho revela como este conto
Expressa vontade de virar a folha
Que ao cair com estrondo, o ponto
Rebente a pele, e esprema a bolha


Liberta sentimento como mangue
Ao provar o doce sabor do brilho
Encandeado, cego, tateia o sangue
E descobre que o sonho é, seu filho

A convite mais uma vez da Chiado Books, este foi o resultado

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Mar & Alma


Aquele punho desliza sobre mesa
Agarrando a pena de fino recorte
Marca a carta, no destino presa
À garrafa q’na viagem, só aporte

Carrega palavras ricas de quietude
Que prosam no silêncio lá, na areia
Um romance não amor, mas virtude
Escrito nas ondas de sal da Sereia

Salpicos sofredores caem no papiro
Amarelado quase sóbrio cor de calma
Cambaleando ao vento, agora defiro
Aprovado na vontade, no mar de alma

Tem carimbo gravado em água incolor
A caixa de Pandora, selada pelo ar
Na candeia da lua, foge ao adamastor
Sob páginas escondido, alma de mar

Leio uma vez, no meio da confusão
Leio outra, agora, de mente  aberta
Procuro clareza no mar da imensidão
Encontro a paz que a alma desperta

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Entre o sono e o sonho


Entre sono, o sonho, um poema

Rabiscado na areia d’meus olhos

Prende a lágrima, abre a algema 

Com rugas do sol, parecem folhos 


Na inquietude fácil do desespero 

o sonho é um rude cabaz d’ideias

Que prospera na noite ao exagero 

Das horas que passam só, e alheias


O sono casado no escuro adormece

Na angústia de não acordar o poeta

E condene a rima que  o rejuvenesce

Ao declamar o conteúdo que o afeta


Um poema que cantado, sofre no ego

Da leitura exausta , às mãos do crivo

Passa de folha em folha, oro e pego

Entre o sono e o sonho, um livro

domingo, 3 de maio de 2020

Um Filme

Ainda sonho o argumento
Que jaz na mesa cabeceira
Marcado pelo pó do lamento
Uma falsa história, verdadeira

Parece mentira esta verdade
A tela que a todos adormece
Rasura o passo da liberdade
A febre, a quem dela padece

Esta película de novo formato
Tem uma bola azul, no desenho
Como símbolo, tem o anonimato
E pobres e ricos, no desempenho

Desperto do sonho, este drama
No altar, batizado de corona
Tem nome de vírus, esta trama
E a quem facilita, não abona

Enclausurado e só, é o lema
No tempo que demora, grita
Ao anseio do título deste tema
Confino o filme, corto a fita

terça-feira, 24 de julho de 2018

12 Anos Escravo

Sinto-me 12 anos escravo
De todo o demais ignorante
P'lo passado preto que gravo
Num presente que passa errante

Olho-me na aparência perseguido
Pela cor da maré, branco costume
Chicoteado, por palavras vãs dorido
Traído e tratado como estrume

Escuto-me no ruído do escuro
Que assola sanzala onde habito
Esconde relatos feitos no muro
Que sangra no silêncio aflito

Sonho-me a reclamar liberdade
A caminhar nu céu de deus
Pelo direito dos direitos meus
E de tudo o que é humanidade

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O outro lado

Ao lado do outro lado
O lado errado do avesso
Mora o amor meu amado
O amor um dia travesso

Prega uma partida sacana
Ao enganar bem enganado
Vai e volta numa semana
Mas agora está amarrado

É paisagem de sensações
Perdidas no vale dos dedos
Este tão amor vende ilusões
Compradas na banca dos medos

Morrerá um dia futuro
Comigo na idade deitado
Cansado, as mágoas aturo
Este amor, o outro lado 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Areal da praxe

Uma onda enrolada na capa
Salpica de preto o areal
De mãos sujas na cara, tapa
Lágrimas, a culpa dum ritual

Uma praxe pintada de dor
Revela história sem tradição
Na arte de fazer o doutor
Queima-se a fita, falta razão

Areal branco de curta idade
Traído ao excesso de confiança
Por mentes de tenra faculdade
Apanhados, adamastor alcança

Sentados de costas ao perigo
Arriscam tudo, a onda chegou
A roleta gira, sai amigo
O resto, tudo o mar levou

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Morte do poeta

No amanhã quando ceder
Olha para mim sem porquês
Ontem foi, deixou de ser
O agora não vendo, tu vês

Vejo o paraíso no teu olhar
Reflexo na retina minha mão
Que escreve a morte a cantar
E reza ao ego livre de religião

Não sintas, eu não sinto
O aperto no ventre da vida
Ignora o sétimo, fica o quinto
Para quebrar rotina descabida

É a morte dum bom poeta
Que jaz como mau da fita
Quis alguém, atingi a meta
Por ti morro, enrolado na xita

O teu nome

Atirei o teu nome ao ar
Na esperança que saisse coroa
Quis o destino que caísse no mar
Muito longe de Lisboa

Preso nas asas do vento
Livre na vontade de viver
Voou sobre a agua o alento
Imbuído da missão do saber

No sonho sempre balanço
Não sei para onde caír
Estendo a mão o nome alcanço
Atiro ao ar sempre a subir

Tem peso mas moderado
Caio torto, fico de pé
Acordo nu baralhado
Rabisco nome cheio de fé

domingo, 10 de novembro de 2013

A verdade de uma historia - ANA

Um dia igual a tantos outros, aborrecido, rotineiro, até que…
Uma criança, larga a mão da mãe, e dirigindo-se a mim, pergunta:
- O Sr, pode levar-me a mim e à minha mãe a casa? – a minha mãe não tem dinheiro agora, mas pode pagar outro dia? Sr. A minha mãe está muito cansada e não temos autocarro.(23H10)
- Levo-te, se me disseres o teu nome princesa.
- Ana, oiço alguém a chamar. Que estás a fazer?
- Mãe o sr. Taxista leva –nos a casa, por favor, diz que sim, estamos muito cansadas…
Vendo esta cena comovente abro a porta do carro e chamo:
- Ana, trás a tua mãe, e entra no táxi, por favor.
Os olhos da Ana brilhavam, enquanto os da mãe, estavam regados de lágrimas que tentava a todo o custo esconder.
- O sr. Já sabe como me chamo e agora quero saber como se chama o sr.
- Henrique, respondo.
- Muito prazer sr Henrique, a minha mãe é a Lucília.
Desenrola-se uma conversa difícil de classificar.
Fico a saber que o pai de Ana tinha morrido há pouco tempo e diz que é ela que toma conta da mãe, e que um dia vai ter muito dinheiro e que a mãe não terá de trabalhar mais.
Foi gratificante ver a ternura e o amor que esta criança nutre pela mãe.
No final, já á porta de casa e de semblante triste, Ana com voz quase imperceptível, diz:
- Sr Henrique a minha mãe não tem dinheiro para pagar mas prometo que assim que o trabalho dela lhe der dinheiro pagamos ao sr.
- Ana, depois de um dia de trabalho aborrecido, tu foste a melhor coisa que me aconteceu e eu não vou aceitar que pagues o táxi.
- Mas…sr Henrique, é o seu trabalho nós queremos pagar!!!
- Ana, tu nem imaginas a fortuna que acabaste de me dar, acredita. Com esse dinheiro compra um presente pra ti.
- Obrigado, Obrigado, Obrigado sr Henrique…mãe, vês, já podemos comprar iogurtes!!!
Fiquei sem reacção.
Lucília quase não teve permissão para falar, excepto para agradecer e dizer algo que me deixou ainda mais de rastos.
- Sr. Henrique, a minha filha tem leucemia…
A PORTA DO TAXI FECHOU-SE.


Ana, tu és uma lutadora, e um dia destes voltaremos a cruzarmo-nos… penso. Toda a sorte do mundo pra ti ANA. 
Esta história verídica aconteceu na Estação da CP de Oeiras.

domingo, 25 de agosto de 2013

ISABEL saudade

Saudade dos teus beijos
Do sabor do teu mel
De discutir os teus desejos
De te chamar amor, Isabel

Passeias em mim sorrindo
De totiço preso com cordel
Despreocupada cantas subindo
Às nuvens com o nome, Isabel

És boneca de pele sedosa
Como as pétalas de flor papel
Tens espinhos mas carinhosa
Guardas o nome de Isabel

Fecho os olhos vejo teu rosto
Cheio de charme e cumplicidade
Que brilha como o sol de agosto
A fazer lembrar ISABEL saudade

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ponte do amor

Entre mim e ti, a ponte
Separa nosso orgulho ferido
Um amor que jorra da fonte
As lágrimas no leito perdido

Do quarto avisto esse rio
Onde corre o amor desfeito
Pergunto triste, se o viu
Responde mudo, sem jeito

Percebo, é o meu destino
A falar da minha justiça
Quando procuro novo inquilino
Acho uma paixão postiça

Desejo que a ponte desabe
E quebre para sempre o vazio
Para que este amor não acabe
A ponte que nos separa ruiu

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Pecado

Quando pensar é pecado
O fruto é apetecido
Imagino-o descascado
Nas noites adormecido

Talvez pecado seja mulher
Que se olha com prazer
Com olhos de bem lhe quer
E pensamento em mexer

É um pecado maldoso
Ao querer passar a mão
Pois implica ser habilidoso
Para lhe agarrar o coração

Agarrar com vontade
Em sentir o seu sabor
E ao comer com saudade
Sou apelidado de pecador

Diário

Livro fechado reserva história
Que  guardo debaixo d'almofada
É o diário da minha memória
De relatos escritos de madrugada

São frases inventadas no soalho
Duma vida rica em segredo
Escondem as estrias do orvalho
Que escorrem nos traços do enredo

É uma novela trágica sem fim
Com personagens de várias cores
Vão ensaiando o papel por mim
Enquanto curo doença d'amores

Cambaleio bêbado mas não caio
Agarro ar no momento certo
Sôfrego respiro brisa de Maio
E agora sim, livro aberto

domingo, 21 de julho de 2013

Prostituta

Corpo liberto de sentimento
Prende a alma da indiferença
Convidada a mostrar o fomento
Por patacas dá a sentença

Em fila, chave abre a porta
Sem convite, entra a servir
De tesoura nas pernas, corta
Já lá dentro, lágrima a cair

Explicita dor no peito aperta
Realidade dolorosa e crua
Deitada na cama fria aberta
Olha o tecto, sentindo-se nua

Finda a tarefa de novo ela
Sozinha no mundo da labuta
A lembrança fica na janela
Onde mostra dotes de prostituta

Comboio

O comboio serpenteia a linha
Radiante leva toda a gente
Pára aqui, acolá, cabeças à pinha
Acena fumo ao vento poente

De chinelos calções ou gravatas
Todos apanham boleia do trem
Até aqueles que são os empatas
Que reclamam quando não vem

Garotos nos barões pendurados
Sacanas, grita a dona Chica
Fogem a rir despreocupados
Quando ao fundo avistam o pica

Fofocas fazem a conversa
Das tias que comentam o alheio
Descascam na vizinha sem pressa
Encantadas pelo excelente paleio